terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Um certo Djavan

A partir do 6º período, comecei a ter contato com os alunos do Ensino Médio. Desde então, notei em sala já nos primeiros encontros que tive com a turma do 1º ano do Ensino Médio, a presença de um adolescente que em meio à turma se sobressaia dada a sua estatura diferenciada cerca de 1.90m, e que todas as conversas da turma tinha como ponto de partida o Luís Gustavo de 17 anos, mais conhecido como “Djavan” devido aos cabelos longos e encaracolados, e pelo violão que gostava de tocar.

              Djavan, em todas as aulas, falava muito e buscava atenção para si, de forma que eu e o aluno da UFF - enquanto estagiários na turma - começamos a perceber que seu comportamento dificultava a aplicação da aula pelo professor que ao entrar a sala já colocava uma tabela especificando desconto nos pontos dos alunos caso houvesse algum caso de indisciplina. Normalmente essa tabela trazia a seguinte informação: menos cinco pontos. Logo, todo aluno que se comportava “fora dos padrões desejados pelo professor” tinha seu nome escrito naquela tabela indicando menos cinco pontos na avaliação.
              Certo dia, em conversa em um dos intervalos, surgiu entre nós estagiários a ideia de nos aproximarmos do Djavan, já preocupados com o nosso futuro, pois teríamos que dar aula na turma e não queríamos que fosse aplicado aquele tipo de punição aos alunos.
              Fizemos um primeiro contato em um dos intervalos e começamos adquirir confiança dele. Em outro dia, o outro estagiário lhe fez algumas perguntas, e dentre elas se o Djavan praticava alguma atividade física, ou algum esporte. Ele perguntou também quais eram as pretensões profissionais do rapaz.  Para nossa surpresa, Djavan relatou que esporadicamente jogava futebol com os amigos. Surgiu então a ideia de perguntar se ele gostaria de tentar jogar basquete, sua resposta foi que  iria tentar e, posteriormente, nos falaria.

              Interessante que Djavan passou a jogar basquete e ao longo do período que estivemos juntos sempre conversávamos, isto acontecia antes da aula, nos intervalos e, às vezes, a conversa ia além da sala de aula, nas redes sociais.
              Finalmente, chegou o dia de aplicação da aula e Djavan já estava “de bem” conosco e com a turma. A aula fluiu tranquilamente. Recentemente, em conversa com ele, perguntei se ele já tinha em mente que caminho gostaria de seguir profissionalmente. Sua resposta me surpreendeu: jogador de basquete, caso não consiga obter êxito, Professor de Geografia, logo o animei. Disse que estava surpreso pelo que ouvi, mas que seu desempenho nas disciplinas Geografia e Física são ótimos e – se por ventura escolher ser professor – será um bom  caminho.

              O que nos deixou perplexos foi ver que uma tentativa de nos darmos bem na aula que iríamos aplicar poderia contribuir para ajudar o adolescente melhorar o comportamento em sala e também levá-lo a fazer escolhas relacionadas ao seu futuro.         

Ajudo ou atrapalho?

Durante todo o período do estágio, desde o quarto período, foi possível notar a diversidade de comportamento e níveis de aprendizado presente na sala de aula. Essa diversidade do corpo de alunos revela o tamanho do desafio que o professor enfrenta ao exercer a docência. Porém, faz-se necessário destacar o desafio que o alunado enfrenta ao se deparar com colegas de sala de aula com diferentes características e capacidade de compreensão proposto em sala de aula. Pois, em uma turma de 30 alunos do 1.° ano do Ensino Médio (turma na qual foi realizada parte do estágio), existem diversos “tipos” de alunos, o que pode trazer benefícios e malefícios ao professor e aos próprios alunos: O benefício, por exemplo, realiza-se quando um aluno tímido possui uma dúvida mas não tem coragem de perguntar ao professor perante a turma, já o aluno mais extrovertido possui a mesma dúvida e pergunta ao professor e, por consequência, beneficia o colega visto que o professor explicará tal dúvida ou dificuldade. O malefício ocorre a partir do momento em que existe um aluno, ou determinado número de alunos, que atrapalham a aula, falam enquanto o professor ministra a aula, porém eles não possuem dificuldade de compreender o conteúdo proposto pelo professor. Mas, isso acaba por atrapalhar outros alunos que prestam atenção na aula e que possuem dificuldade de aprendizado. O conto a seguir enfatiza tal problema enfrentado pelo professor e alunos nas salas de aula:
Na turma do 1.° ano A existe um aluno chamado Manoel. Manoel é um aluno elogiado pelos professores, no que tange a sua inteligência e sua capacidade de compreensão. É um aluno comunicativo, simpático, extrovertido e alegre. Até aí, só elogios. Porém, quando perguntados a respeito do comportamento em sala de aula os professores dizem: - Manoel? Não para de falar um segundo. Sempre faz brincadeiras com tudo e com todos, o que faz por muitas vezes desviar a atenção da aula para ele. Durante o estágio na turma, foi possível perceber que Manoel aprende o conteúdo rapidamente e logo depois começa com as brincadeiras. Isso acarreta um problema sério, pois nem todos os alunos da turma possuem a capacidade e rapidez de compreensão que ele possui. Ele não faz os exercícios em sala de aula, e às vezes faz o de casa. Só que na hora da avaliação e seminários, Manoel atinge as melhores notas da turma em todas as disciplinas. Mas, alguns alunos sofrem com essas características de Manoel. A Ana é um exemplo disso: ela se esforça para prestar atenção nas aulas e Manoel acaba por dificultar a sua concentração. Assim, Manoel contribui de forma considerável para o baixo rendimento de Ana, que já possui problemas de aprendizado.
Manoel já conversou diversas vezes com a orientação educacional do colégio, os pais já compareceram no colégio algumas vezes ao longo do ano letivo, mas seu problema comportamental continuou. O que chamou atenção em Manoel foi a capacidade de assimilar o conteúdo rapidamente, brincar e quando o professor parava a aula para direcionar uma pergunta a ele a respeito do conteúdo, ele, na maioria das vezes, sabia responder corretamente.


O QUERIDINHO MUNDO

A escola era agradável, o dia era quente e a sala de aula era mais quente ainda. Naquele dia, durante a manhã mais ensolarada que o normal – e nem era verão, começa um burburinho na sala A. O assunto certamente era o calor e a professora, coitada, tentava levar a diante sua aula. O burburinho que começou na sala A já estava tomando conta das salas vizinhas e em pouco tempo tomou a escola por completo. Dona Lola, inspetora da escola, ficou responsável para manter os alunos em sala, porém, naquele fatídico dia D. Lola não conseguia nem mesmo manter a sua saia no lugar quem dirá os alunos. Lola, para os íntimos, muito atrapalhada, porém competente trabalha na escola todas as manhãs com um belo sorriso no rosto haja sol ou chuva. Desde o sinal de entrada até o de saída, D. Lola dá voltas e mais voltas pelo corredor e com sua voz estridente gritava os alunos para voltarem as suas salas. Meio a tanta gritaria e alvoroço, eis que Fabinho, aluno do 1º ano do Ensino Médio, volta para sua aula (A). Era aula de Geografia do professor Raimundo, mais conhecido pelos alunos como professor Mundo. Fabinho logo juntou a sua galera do “fundão” – Dinho, Marô, Nando, Lucas e Flor faziam parte da galera do “fundão” junto com Fabinho.
            Professor Mundo era o queridinho da turma, os alunos poderiam não gostar da disciplina, mas com certeza gostavam de Mundo. O tema da aula, era sobre os climas brasileiros, mas vamos pular essa parte e ir direto para a atividade aplicada por Mundo. Sempre criativo e inovador, o querido professor trouxe uma proposta diferente do normal ao sugerir que os alunos saíssem da sala de aula e fossem todos para a quadra poliesportiva da escola. Fabinho e sua turma levantaram eufóricos e bem agitados, passaram correndo por Lola quase atropelando a coitada que estava em sua rota matinal. Sem entender nada, pobre Lola, corria toda atrapalhada atrás dos alunos gritando para que os mesmos voltassem para sala. Na tentativa frustrada de agarrar o braço de Marô – a namoradinha de Fabinho, Lola levou um belo escorregão em meio ao corredor. Ela não se machucou, graças a Deus D. Lola é bem durona, sabe?! Marô, entre risos, explicou a Lola o motivo de todos terem saído da sala. – Foi o professor Mundo que pediu para irmos à quadra. O mal entendido foi explicado, logo em seguida, pelo próprio professor, assim que chegou a quadra.
            D. Lola ainda inconformada com o ocorrido questionou ao querido Raimundo:
 - Mas o senhor não dá aula de Geografia? Quer fazer o que na quadra poliesportiva? Com um sorriso sincero e um olhar furioso, o professor Mundo respondeu:
- A Geografia está em todas as partes, e a senhora é minha convidada para assistir a minha aula.
 A D. Lola avermelhou-se na hora e ficou na espreita assistindo a aula do queridinho como quem não quer nada, mas com um olhar bem desconfiado.  
            O professor Raimundo continuou sua aula e aproveitou o calor excessivo daquele dia para explicar os alunos o clima, e cá entre nós nada melhor do que ver a explicação e todo o processo acontecendo em sua volta. Durante a explicação, Fabinho e Marô não paravam de falar, e sem perder o título de queridinho Mundo pediu para Fabinho deixar de azarar a Marô durante a aula para namorar no intervalo escondidinho. Que comédia é esse Mundo, hein! A aula terminou e os alunos nem estavam doidos para ir embora. A galera do “fundão” ou do Fabinho são “fechamento” com o professor Mundo, e terminaram a aula com uma pérola digna de ser contada. De acordo com a “galera”:
- Pow prof. Geografia é mais legal que Educação Física, a próxima aula podia ser na rua.  

            Raimundo que não é bobo nem nada, aproveitou a empolgação e preparou um trabalho para a próxima aula buscando atender ao pedido da sua “galera”. Muitas vezes para fazer uma aula atrativa, ou simplesmente conseguir a atenção dos alunos é preciso muito pouco. Em um dia caloroso e alvoroçado o nosso “queridinho” saiu melhor que a encomenda.

As diferenças e o preconceito

Em uma cidadezinha lá no interior do Estado do Rio de Janeiro, cujo seus governantes são tratados no diminutivo há uma grande escola com diversas pessoas com realidades e cultura muito diferentes umas das outras. Em uma aula de Geografia do 8º ano a professora havia preparado um trabalho com eles sobre religião e danças típicas das regiões brasileiras. Três alunos tinham preparado uma demonstração do Candomblé.
Após as apresentações dos colegas, eles se preparam para suas interpretações do Candomblé. Um aluno foi tão convincente na sua apresentação que os outros ficaram com medo dele estar “possuído”. Ele vendo o medo dos colegas, começou a aterrorizar os demais nas aulas. A partir desse dia, os colegas se afastaram dele e passaram a excluí-lo das atividades em grupo.

Com isso, podemos aprender que apesar de ser uma brincadeira simulando uma religião tradicional da região do nosso país, o preconceito e a desinformação da religião, trouxe efeitos negativos na vida do aluno, assim como acontece com os adeptos do Candomblé.

Aprendendo a ensinar

Esse fato aconteceu numa escola do município de Campos dos Goytacazes, com pouco recurso didático e uma estrutura bastante deficiente se vista de perto.

Durante o estágio do quinto período, deparei-me com uma situação complicada, comovente e profundamente construtiva: Uma turma de 6º ano que não tinha professor titular com um aluno surdo com dificuldades na fala e sem intérprete. O primeiro fato levou a diretora da instituição a pedir que eu assumisse a turma enquanto estivesse na escola estagiando. Ao assumir a turma encontro esse presente, para uns seria um presente de grego, mas para mim foi uma forma de crescer enquanto profissional e ser humano.
A princípio, admito ter sido bem difícil a comunicação, já que não conhecia nenhuma palavra ou sinal desta língua, o que me obrigava a usar sinais universais, como positivo ou negativo. O “Juliano”, um mulato baixinho e de olhos bem atentos, era um aluno muito inteligente, porém com suas capacidades pouco exploradas pela ausência da comunicação. Apenas 3 colegas de sala mantinham uma boa comunicação com ele, auxiliando a todos os professores ao longo das aulas e com a explicação do conteúdo. A limitação da língua me obrigou a explorar de forma mais profunda os poucos recursos que possuía: um quadro negro e um giz branco, livro didático e a imaginação.
O quadro vivia repleto de desenhos com setas e tentativas de globo terrestre. Maçãs e celulares viraram, respectivamente, planeta Terra e Sol. Fiz caminho fundo à mesa do “Juliano”. Alguns professores relataram a melhora dele em outras disciplinas, talvez, acredito eu, que o rapazinho de apenas 11 anos na época, tenha percebido que alguém se importava realmente como aprendizado dele e não o via como empecilho ou um peso a carregar.
No bimestre que tive a oportunidade de crescer com ele, pude perceber o quanto ele aprendeu comigo. Infelizmente, com o corre-corre da vida cotidiana, não tive oportunidade de procurá-lo e saber como anda sua educação, mas posso ter certeza que para minha formação a passagem dele foi extremamente valiosa, pois por ele eu quis aprender LIBRAS e dessa forma, no mínimo, cumprimentar um aluno surdo ou mudo em sua própria língua.

Anitta e seu isolamento


Esse conto foi baseado em fatos reais ocorridos em uma escola pública do Estado do Rio de Janeiro.



Durante o estágio, eu observei que a aluna Anitta só se sentava na primeira carteira sempre e não largava um livro de romance, levando-me a crer que era uma menina muito sensível. A voz de locutora de aeroporto também muito chamava a atenção, nas raríssimas vezes que falava, já que estava sempre muito centrada na aula.  Logo nas primeiras aulas,  simpatizei com a  menina. Mas. com o passar das aulas, fui observando que existia um isolamento da mesma com os colegas e aquilo começou a me incomodar.
Até que, em certa ocasião, ao passar um trabalho em grupo, Anitta me pediu para fazer sozinha. Questionada por que, deu-me uma resposta evasiva. Ao abordar alguns grupos, verifiquei que ninguém demonstrou a menor vontade em tê-la como componente. 
Nesse dia, pude constatar que algo de muito errado ocorria. Como havia me simpatizado com Anitta, senti-me na obrigação de descobrir o que de fato ocorria.
  Aproximei-me de Anitta e tentei de forma amena, se é que se consegue abordar uma aluna de 16 anos dessa forma, e questionei a mesma se algo de errado ocorria entre ela e a turma. Ela disse que não e afirmou que gostava de fazer trabalhos sozinha, pois assim se sentia mais a vontade. A resposta dela não me convenceu e continuei minha busca, fiz alguns questionamentos a alunos da turma e, para minha surpresa, descobri o que provalvemente imaginava e não queria admitir. Contaram-me que, no ano anterior, Anitta foi flagrada no banheiro masculino fazendo sexo oral. A informação soou como uma bomba para mim. Perguntava-me como lidar com aquela situação, como fazer Anitta ser aceita no grupo social de novo. Ouvi diversos relatos de outros alunos que até acreditavam que a mesma nunca mais fez aquilo, mas todos confirmaram que era verdade. Razão pela qual ficou evidente para mim porque ela não era aceita nos trabalhos em grupo.

            Tomei coragem e fiz uma abordagem mais direta a ela, apesar de confirmar o fato, disse que não foi com ela. Entendi que era uma forma de me dizer que era tudo verdade, ela me disse que era uma amiga muito próxima dela e ficou tudo na conta dela. Perguntei-a por que sua amiga não saiu da escola, ela disse que era a escola perto da casa da amiga, outras seriam muito longe.

Agora levo a todos meu grande questionamento:
Como fazer com que a turma volte a interagir positivamente com Anitta?

Um aluno irreverente


    


Anderson se levantou e acompanhou-a, retirando-se então da sala após as tentativas frustrantes da professora.

 Anderson era um aluno do 9° ano que gostava de testar a paciência de seus professores.
   Certo dia, ele levou um telefone celular para a sala de aula, embora soubesse que as normas da instituição (pública estadual) fossem contrárias a tal atitude.
   Além de não prestar atenção na aula, tentava persuadir os colegas a fazer o mesmo.
   E lá estava ele, distraidamente, com o fone de ouvido quando a professora solicitou que desligasse o telefone porque estava atrapalhando a aula. Imediatamente, o aluno respondeu (de forma agressiva) que não desligaria o telefone. Na impossibilidade de fazer com que o aluno lhe obedecesse, a professora pediu que ele se retirasse da sala.
    Foi aí que a coisa piorou. O rapaz começou a se exaltar, a ofendê-la e a dizer que não desligaria o aparelho e nem sairia da sala.
    Então, como último recurso, percebendo a sua impotência diante desse fato, ela resolveu chamar a Coordenadora de Turno para intervir. A Coordenadora atendeu prontamente ao pedido da professora, convidando o aluno para se retirar da sala de aula para que pudessem conversar.
   Anderson se levantou e acompanhou-a, retirando-se então da sala após as tentativas frustrantes da professora.